O Bom pastor e seus comentários

O Bom pastor e seus comentários

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Romanos 1.24-32 = Uma Resposta Bíblica à Homossexualidade


Introdução:
Quero assistir com os irmãos esse vídeo veiculado na Internet: “Homofobia nas Igrejas e Suicídio”. Ele tem duração de 9m44s. O tempo normal de uma introdução de sermão.
O vídeo conta a história de uma mulher cristã que tendo tido uma experiência triste frente à homossexualidade de uma das filhas, que suicidou e a culpou por isso, resolveu rever a interpretação dos textos bíblicos que tratam da homossexualidade. Convertendo-se a uma hermenêutica liberal das escrituras passou a defender as práticas homossexuais como aceitáveis.
Notem alguns detalhes do video.
1º) A família perdeu a sua estrutura num divórcio, mas isso nunca parece ser importante não é mesmo?
2º) Há uma nova pesquisa bíblica empreendida com uma nova perspectiva hermenêutica: cultural, existencialista, pessoal e intimista.
3º) A culpa nunca é minha, mas dos outros. A filha condenou a mãe e a mãe condenou a igreja e o Deus que ela prega. Precisamos de um novo Deus, mais aceitável ao que desejamos viver. O pecado segue sempre o mesmo caminho da queda de Adão e Eva no Éden: Adão condenou Eva, que condenou a serpente, e agora todos condenam Deus por condenar o pecado.



Contexto:
Parece-me que é disso mesmo que Paulo trata em Romanos 1.
Os versos 16 e 17 são maravilhosos porque nos falam do poder de Deus para salvar todo aquele que crê. Mas salvar do que?
Na visão de Paulo: Salvar da impiedade e perversão que os não religiosos vivem (Rm 1) e do moralismo legalista que os religiosos que buscam a salvação por suas obras vivem (Rm 2). Tanto o primeiro grupo quanto o segundo são indesculpáveis na presença de Deus (Rm 1.20; 2.1).
Desde o v. 18 até o v. 28, Paulo vem traçando uma linha divisória bem nítida entre a auto-revelação de Deus e a impiedade e perversão dos homens, que rejeitaram a luz pelo amor às trevas.

A exposição de Paulo seguiu dois pontos até aqui:
1. A auto-revelação de Deus e a revelação da Sua ira tornam o homem indesculpável perante Deus v. 18-20:
2. A impiedade e perversão dos homens agem em oposição a Deus v. 18-28. (O que foi enfatizado hoje de manhã na exposição do Rev. Milton Jr.).

Proposição:
Paulo conclui o capítulo 1 de Romanos mostrando que a aplicação da justiça retributiva de Deus define a sua punição contra a humanidade ímpia e perversa:

I. O QUE É JUSTIÇA RETRIBUTIVA?

A aplicação da justiça divina tem a ver com a preservação da santidade de Deus por meio de Sua retidão. Sendo reto, Deus se coloca contra toda tentativa dos homens de violar a sua santidade quando violam as suas leis reveladas nas escrituras.
Louis Berkhof nos apresenta 3 aspectos diferentes da justiça divina quanto à preservação de sua santidade e retidão morais:
1. Justiça Regencial: Deus manifesta a sua retidão como rei soberano e impõe uma Lei justa aos homens com promessas de benção para os obedientes e ameaças de castigo para os desobedientes (Sl 99.4; Is 33.22; Rm 1.32).

2. Justiça Remunerativa: Manifesta-se na distribuição de recompensas aos homens e aos anjos bons (Sl 58.11). Expressa o amor divino, tendo na promessa de Deus a sua realização mais do que nos méritos humanos a sua base (Lc 17.10; I Co 4.7).

3. Justiça Distributiva: Relaciona-se com a aplicação de penalidades como expressão da ira divina. Embora a Bíblia acentue a recompensa dos retos, não deixa passar em branco a veracidade da ira justa de Deus contra os iníquos (Rm 1.32; 2.9; 12.19; II Ts 1.8).

II. A MAIOR MANIFESTAÇÃO DO CASTIGO DE DEUS É O ABANDONO DO HOMEM A SI MESMO.

A retribuição dada pela justiça de Deus é-nos apresentada por Paulo em três frases chave regidas pelo verbo “entregar” (v.24,26,28). A maior manifestação do castigo de Deus é o abandono do homem; Deus o entrega a si mesmo. O homem recebe por castigo aquilo que sempre quis pelo desejo incontrolável de sua alma e de sua carne. O abandono de Deus é punitivo, não apenas permissivo, mas também não irreversível, pois a graça é-lhes oferecida na pregação do evangelho que chama continuamente a sociedade ao arrependimento. A punição divina é a conseqüência lógica de sua ignorância culposa e de sua pecaminosidade voluntária.

a) Deus os entregou à imundícia v.24:
O texto é iniciado com expressão “por isso”. Logo, Paulo está concluindo que a imundícia (palavra que tem conotação sexual), é fruto da idolatria. A história da humanidade nos mostra claramente que a idolatria sempre termina em imoralidade. Um falso conceito de Deus sempre tem conduzido aos homens a uma má definição de sexualidade. A grande maioria dos cultos pagãos antigos representavam seus deuses com figuras de fertilidade (Baal, Diana dos Efésios, Afrodite etc).

 Pelas concupiscências do seu próprio coração.
Os desejos desenfreados do nosso coração nos conduzirão à imundícia e à desonra do nosso próprio corpo. O instrumento são os desejos do coração. O alvo ou conseqüência final é a desonra do corpo.

 Para desonrarem o seu próprio corpo entre si.
“Desonra” está no infinitivo, o que denota um estado permanente, o completo afastamento da presença de Deus. As pessoas desonrarão o próprio corpo continuamente como costume e hábito ético.

b) Deus os entregou a paixões infames v.26,27:
 As mulheres mudaram o modo natural de suas relações intimas.
 Outro contrário à natureza.
Paulo se refere explicitamente ao casamento heterosexual monogâmico.

 Os homens deixando o contato natural com a mulher.
 Inflamaram-se mutuamente.
 Em sua sensualidade.
 Cometendo torpeza.
A concretização de um desejo sensual passa a ser um único alvo da vida. Tiago diz que nosso fracasso diante do cumprimento vontade de Deus provém dos desejos que militam fazendo guerra em nossa carne (Tg 4.1-4).

Os v. 26 e 27 são cruciais para o nosso entendimento do debate sobre a homossexualidade. Em nenhum momento Paulo defende a homossexualidade. A posição bíblica clara, à qual Paulo segue, é que Deus criou o homem e a mulher e que qualquer relacionamento sexual que lhe é aceitável está na monogamia heterossexual.

A Bíblia é hoje o maior obstáculo à normalização da homossexualidade como um comportamento não só aceitável como também desejável na sociedade.
Existem pelo menos três argumentos usados pelos homossexuais para apoiarem suas pretensões:
1. A passagem é irrelevante para a discussão. Para eles Paulo está simplesmente falando de como é a manifestação da ira de Deus; contudo é clara a intenção de Paulo em mostrar que essa ira tem alvo definido e que os pecados mencionados são esses alvos, dentre os quais estão a homossexualidade.

2. O alvo de Paulo era criticar a pederastia (relação sexual de um homem mais velho com um bem mais jovem), não o homossexualismo. Isso simplesmente não é afirmado no texto, o que quer dizer que Paulo é bem mais geral na sua definição de pecados sexuais que os homossexuais estão dispostos a admitir e aceitar.

3. Uma exegese diferente do que seja o uso da palavra “natureza” no texto. Dizem não poder aceitar que suas relações sejam “contrárias à natureza”, uma vez que para eles são bastante naturais. Para eles, Paulo não tinha qualquer entendimento de nossa idéia moderna de orientação sexual. Pecado contra a natureza, na visão homossexual, é violar a própria orientação sexual. Contudo, não podemos interpretar o texto incluindo fatores que neles não aparecem. “Natureza” não “minha natureza”, antes diz respeito à ordem criada por Deus. Agir contrários à natureza é rejeitar a forma como Deus criou e preordenou as coisas e os relacionamentos na sua criação.

Essa mesma atitude de reinterpretar as escrituras é aplicada a todos os textos que condenam a homossexualidade:
 Gênesis 19 não condena a sodomia, mas a inospitalidade.
 Levítico condena atos homossexuais que são praticados por pessoas heterossexuais.

As acusações de que Paulo desconhece o que seja orientação sexual é completamente equivocada, pois no texto ele lida tanto com a orientação e atividade sexual quanto com as paixões que levam a essa atividade.
Paulo usa duas expressões no texto que demonstram o caráter pecaminoso da homossexualidade tanto feminina quanto masculina. São elas: “contrário à natureza” e “torpeza”. Para Paulo tornar-se homossexual é deixar no sentido de esquecer, abandonar definitivamente) o “contato natural” criado por Deus para a humanidade. Torpeza é “obscenidade, sem vergonhice” perder o senso do que seja vergonhoso, não ter pudor.

c) Deus os entregou a uma disposição mental reprovável v.28:
Paulo afirma novamente que Deus os entregou. Dessa vez a uma atitude
mental que é a geradora de todos os pecados que afastam os homens de Deus.

 Para praticarem coisas inconvenientes (kaqhkonta).
A mente depravada conduz não somente à imoralidade como vimos acima, mas também a fazer aquilo que não se deve. “Coisas convenientes” era um termo estóico que dizia respeito ao dever.
A ira de Deus se revela verdadeiramente contra a homossexualidade, mas não é somente contra ela que se revela; é contra toda impiedade e perversão dos homens (v.18). A seguir Paulo alista 21 pecados que caracterizam aqueles que abandonaram a Deus por acharem que não valia a pena servi-lo. Paulo apresenta essa longa lista (as palavras entre colchetes são transliterações do texto grego original):

a) Cheios (peplhromenouj) de toda...
 Injustiça (adikia) = a violação dos direitos dos homens, quando cada um deixa de receber o que lhe é devido .
 Malícia (ponhria). Calvino afirma que a malícia “é a depravação e perversão da mente que se empenha por prejudicar o nosso próximo”.
 Avareza (pleonecia) = o desejo insaciável de ter sempre mais, mesmo às custas de prejudicar os outros.
 e maldade (kakia).

b) Possuídos (mestouj) de...
 Inveja (fqonou).
 Homicídio (fonou) = Assassinato.
 Contenda (eridoj) = Discussões. Calvino fala de rivalidade, de onde se deduz atitudes de competição.
 Dolo (dolou) = engano, traição, falsidade.
 e malignidade (kakohteiaj).

c) Sendo... (não tem essa expressão no texto original):
 Difamadores (yiquristaj) murmuradores, que reclama dos outros aos quatro ventos.
 Caluniadores (katalalouj) = Que falam mal dos outros, fofoqueiros.
A diferença entre os difamadores e os caluniadores, segundo Calvino,
é que os difamadores destroem as amizades semeando a discórdia entre os amigos, falando mal dos inocentes; enquanto que os caluniadores falam mal de todo mundo independente de serem culpados ou inocentes.
 Aborrecidos de Deus (qeostugeij) = aqueles que odeiam a Deus. São aqueles que percebem que a justiça de Deus não aprova as suas atitudes e obras .
 Insolentes (ubristaj) crueldade, os que têm prazer em ver e fazer os outros sofrerem..
 Soberbos (uperrhfavouj) orgulhosos. São os que se colocam em pedestais e não aceitam que outros ganham a atenção que acham dever pertencer somente a eles.
 Presunçosos (alazonaj) = Os que vivem de fazer promessas falsas para não cumprir ou que vivem de sua auto-confiança.
 Inventores de males (efeuretasj kakwn). Os que destroem os vínculos de sociedade com o seu mal procedimento .
 Desobedientes aos pais (goveusin apeiqeij).
 Insensatos (asunetouj).
 Pérfidos (asunqetouj) quebradores de pactos.
 Sem afeição natural (astorgouj) = Aqueles que agem contrariamente ao natural. Ex. A mãe que abandona o filho; o pai que abandona a família, o filho que abandona os pais na velhice; o governante que não cuida das necessidades do povo .
 E sem misericórdia (avelehmonaj) = Pessoas implacáveis, que não sabem e não gostam de perdoar, mas que sempre carregam mágoas e reclamações dos outros.

Conclusão v.32:
O desprezo pela sentença da justiça divina: Eles não só fazem como aprovam os que fazem, como, por exemplo, legalizando suas práticas pecaminosas.

V. 27: Eles receberão em si mesmos a merecida punição do seu erro.
V.25: O Deus criador é bendito eternamente, amém!

Aplicações:
Diante dessa agenda homossexual que se fortalece, o que o cristianismo deve fazer?

Primeiro: Agir em todas as frentes. Não podemos simplesmente aceitar que uma redefinição de termos resolva os profundos problemas da natureza humana. Isso é engano e o engano nunca nos levará àquilo que é bom. Uma coisa não deixa de ser o que é só porque mudamos o seu nome. O leão não ficará manso só porque foi rebatizado com o nome de “gatinho”.

Segundo: Dar testemunho da verdade dizendo as coisas certas e fazendo as coisas certas. Nossos casamentos e famílias devem existir para mostrar a suprema beleza do propósito eterno de Deus. Se a insanidade, a irracionalidade e a anarquia governam o mundo, elas não nos governarão (I Jo 2.15-17).

Terceiro: Ser igrejas com casamentos fiéis e famílias saudáveis, por meio da aceitação e vivência dos valores cristãos em sua inteireza e ensiná-los positivamente aos nossos filhos. Lembremo-nos, por exemplo, que o divórcio é algo que Deus “odeia” (Ml 2.14,16). A nossa incoerência é nossa maior inimiga, não a agenda homossexual.

Quarto: Resgatar os que perecem e amar os inimigos e orar por eles (Mt 5.43-48). Quando eles caírem doentes e entrarem em desespero deverão ser as nossas mãos estendidas que os levantarão para a esperança, para o perdão e para uma nova vida. Devemos resgatar os que perecem e amar aos ímpios porque nós mesmos éramos assim (Rm 5.5-10).

sábado, 28 de maio de 2011

A Genebra de João Calvino.

Figura 1: Genebra por volta de 1540

A GENEBRA DE JOÃO CALVINO
Rev. Helio O. Silva, STM.[1]

Genebra e a Confederação Helvética.
Falar de Calvino é falar de Genebra, pois só é possível entender sua história e seu pensamento no contexto de sua influência sobre essa cidade e dessa cidade sobre ele. Ele mesmo julgava essa relação embaraçosa e muitas vezes irritante.[2]
Genebra iniciou o séc. XVI lutando contra a tirania do Duque de Savoy e de seu bispo.

A Suíça do século XVI estava dividida em três unidades distintas: a Confederação Helvética (Zurique, Berna, Lucerna, Basiléia e Frburgo – somavam 13 estados); Valais e as Três Ligas Réticas.[3] Genebra figurava como uma cidade-estado independente aliada, mas não ainda membro da Confederação Helvética. Sua população se dividia em dois partidos: Os mammelus (conservadores que apoiavam o domínio francês de Savoy) e os Eidguenots (opostositores a Savoy em favor da Confederação Helvética). Eidguenots é uma palavra alemã que significa “confederados”.[4] Savoy perdeu sua autoridade política sobre Genebra em 1526, quando esta entrou em aliança com Berna e Friburgo, antes da reforma celebrar em Genebra o seu primeiro culto em 1533 sob a direção de Farel. Oficialmente a cidade aceitou a reforma em 21/05/1536.

Organização político-administrativa da cidade.


1. Pequeno Conselho (Petit Conseil).
Era o que realmente governava a cidade. Seus membros eram chamados de “magníficos senhores”, “senhores de Genebra” ou de “síndicos do conselho”.[5] Tinham o poder de aplicar a pena de morte sem direito a apelação acima de sua jurisdição. Seus membros eram escolhidos pelo Conselho dos Duzentos, pelos síndicos que deixavam o cargo e pelos novos síndicos. Com exceção dos síndicos, todos podiam ser reeleitos.
Sua complexa forma era constituída assim: 4 síndicos do ano + 4 síndicos do ano anterior (8 membros), 1 tesoureiro + 16 cidadãos eleitos = 25 membros no total.
Era responsável pelos assuntos rotineiros da cidade, inclusive a defesa, guarda e execução de prisioneiros.
A função dos quatro síndicos era respectivamente:
(1) O Seniour que presidia o Pequeno Conselho.
(2) Presidia o tesouro e o banco municipal.
(3) Presidia a guarda da cidade.
(4) Supervisionava os 20 distritos de Genebra.[6]
Os quatro primeiros síndicos eram os mais importantes. Um deles era o síndico sênior, quem presidia as reuniões do Pequeno Conselho. Quem ocupasse o cargo de síndico, deveria esperar um intervalo de quatro anos para poder ser eleito para essa função novamente.
Reunia-se três vezes por semana (Segundas, terças e sextas-feiras) e sempre que convocado extraordinariamente. Os síndicos se reuniam diariamente. O Pequeno Conselho subdividia a administração da cidade em várias áreas e nomeava seus membros para a administração da mesma por meio de seis Comissões ao tempo de Calvino (judicial, financeira, defesa, eclesiástica, diaconia, adicionais...). A área eclesiástica gozava de relativa interdependência.


2. Conselho dos Sessenta (Conseil dês Soixante).
Tinha um caráter essencialmente diplomático, interpretado como uma relíquia do século XV e que desapareceu na época de Calvino.

3. Conselho dos Duzentos (Conseil dês Deux Cents).
Também conhecido como Grande Conselho. Seus membros eram criteriosamente escolhidos pelos membros do Pequeno Conselho.[7]

4. Assembléia Geral ou Conselho Geral (Le Conseil General).
O Conselho Geral era formado por todos os cidadãos genebrinos natos (Citoyens) e aqueles que possuíam título de honra conferido pelo Conselho dos Duzentos. Era o órgão de apelação última. Reunia-se duas ou três vezes por ano. Reunia-se em fevereiro para a eleição dos síndicos ou de algum oficial Senior e em novembro para fixar o preço do milho e do vinho.[8] Contudo, a justiça criminal permanecia aos cuidados do Pequeno Conselho.

5. Burgueses (Bourgeois) com posição de honra, o que não afetava necessariamente a questão da cidadania. Esse título era expedido pelo Pequeno Conselho e adquirido por alta quantia em dinheiro. Somente em Genebra havia uma distinção entre Cidadãos e Burgueses quanto a direitos.

6. População em Geral: Homens não cidadãos, geralmente estrangeiros (habitants), mulheres e crianças.

Aos pastores era vedada a eleição para qualquer conselho, tampouco aos estrangeiros que vivessem na cidade e que tivessem comprado o título de cidadãos. Somente após 1555 foi-lhes permitido ascender somente ao Conselho dos Duzentos.[9]

População e Estratificação Social.
Quando chegou a Genebra em 1538 sua população orbitava em torno de 11 mil habitantes. Entre 1545 e 1560 esse número duplicou. Com o recrudescimento da perseguição ao protestantismo Genebra recebeu refugiados italianos, espanhóis, alemães, dos Países Baixos, ingleses, escoceses e principalmente franceses.[10] Mesmo assim de 1500 a 1800, Genebra fora a mais populosa de todas as cidades Suiças. Num raio de 200Km somente Lion (França) e Turim (Itália) eram mais populosas.
Figura 3: O Lago de Genebra

A cidade em si não inspirava opulência. Seus prédios públicos não eram imponentes e sua Universidade só foi fundada pelo próprio Calvino somente em 1559. Não havia indústrias de manufaturas locais nem mestres artesãos. Até mesmo sua relojoaria, que depois se tornaria famosa, e a imprensa, eram conseqüência da imigração francesa.[11]

Genebra era divida em 20 distritos (Dizaimes) tendo cada qual o seu supervisor (capitaine) que era responsável por manter a ordem. Os 12 anciãos (presbíteros) mais velhos do Consistório da Igreja de Genebra eram nomeados pelo Pequeno Conselho para supervisionar cada distrito em particular sob a liderança de um dos síndicos da cidade.[12]

Antes de 1535 a cidade possuía sete hospitais religiosos, que o Pequeno Conselho reduziu a apenas um após as desapropriações feitas com a expulsão dos padres e freiras da cidade a fim de se implementar a reforma protestante. O administrador do hospital era um diácono hospitalário,[13] nomeado pelo Pequeno Conselho dentre os eleitos pela assembléia da igreja.

Havia uma pequena casa de detenção inadequada para longos aprisionamentos em caso de crimes graves. Por isso, as penalidades aplicadas eram:
1. A pena de morte: Simples (por decapitação) ou com tormentos (mutilação, por queimaduras com fogo brando).
2. Exílio: (a) Definitivo (definilus) cm confisco de propriedades. (a) Temporário, como por exemplo “um ano e um dia”, ou mais tempo.
3. Açoites: que eram inconvenientes para cavalheiros.
4. Pagamento de multas: As multas eram pesadas e difíceis de ser recolhidas.
5. Humilhação pública: descrita como a sentença para se pedir clemência a Deus e à justiça. Podia ser aparecer em público trajando roupas de humilhação, carregando uma tocha, pedindo perdão em lugares específicos da cidade.
6. O governo da cidade era avesso a torturas, por isso preferia a pena de morte. As torturas eram permitidas somente em caso de bruxaria.[14]

Econômica e politicamente estava vivendo um importante tempo de transição. Genebra era uma cidade-estado republicana (civitas) que tinha em sua Assembléia Geral o principal órgão de poder político. Sua língua oficial era o francês, o que a aproximava das práticas legais francesas. Mas o idioma falado era o dialeto patoá de Savoy contendo substancial mistura de alemão.[15]

Ao abraçar a reforma a cidade fora colocada sob interdito pelo duque de Savoy causando desabastecimento. O grande afluxo de estrangeiros que se seguiu gerou tempos de escassez em todo o tempo de Calvino. No início do século XVI a especulação era desenfreada em função da paixão por negócios e pelo jogo. As transformações sociais muito rápidas ocorridas ao tempo de Calvino levaram a nobreza da cidade à ruína.[16] Na virada de 1500 os profissionais mais numerosos em Genebra eram os tabeliães (notários), açougueiros, alfaiates, costureiros, carpinteiros, fabricantes de tecidos, boticários e bolseiros.

A estratificação social era dividida em:[17]
1. Cidadãos (Citoyens): Nascido em Genebra ou batizado por pais nascidos em Genebra
2. Burgueses (Bourgeois): Título adquirido depois de um longo período de residência em Genebra e mediante pagamento de certa quantia determinada pelo Pequeno Conselho. Essa era uma forma de angariar fundos para os cofres públicos em tempos de crise financeira. Em 1547 o Pequeno Conselho se viu obrigado a colocar títulos à venda, o que favoreceu o partido reformador.[18] Nenhum Burguês poderia ser membro do Pequeno Conselho, mas os seus filhos nascidos em Genebra podiam. Todavia um Burguês poderia ser eleito para o Conselho dos Sessenta ou para o Conselho dos Duzentos.
3. Habitantes (Habitants): Eram simplesmente os estrangeiros residentes em Genebra. Não tinham permissão para carregar espadas, nem de participar das eleições ou ocupar cargos públicos, exceto o de pastor ou professor (preletor - lecteur) nas escolas, mesmo assim, somente se não houvesse um nativo capaz de ocupar tais funções. Um habitant era passível de expulsão sumária, o que ocorreu com Calvino em 1538. Calvino foi um habitant até 1559, quando recebeu o título de cidadania (Citoyen) como uma gentileza livre de taxas.

Quanto à reforma a cidade se dividia entre o “partido reformador” e um grupo conhecido como “os libertinos”. Estes últimos eram membros da nobreza que inicialmente apoiaram a reforma, mas que se voltaram contra ela em função de interesses próprios. Eles não tinham um programa de governo definido e haviam desenvolvido uma mentalidade de protesto hostil e exagerada. Suas manifestações contra os regulamentos eram arrogantes e por falta de controle quando em disciplina angariando para eles aversão em vez de simpatia.[19]
Figura 4: Parte velha de Genebra
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Notas:
[1] Pastor-auxiliar da Igreja Presbiteriana Jardim Goiás - Goiânia-GO desde 2015. Bacharel em Teologia (BTh) pelo SPBC (1990) e pela FAIFA (Convalidação) - 2012; Mestre em Teologia Histórica (STM) pelo CPAJ (2004). Doutorando em Ministério pelo CPAJ.
[2] Allister McGarth, A Vida de João Calvino, p. 99.
[3] Armando A. Silvestre; Calvino e a Resistência ao Estado, p.21.
[4] Ibid, p. 22.
[5] Armando A. Silvestre, Calvino e a Resistência ao Estado, p.29.
[6] Ibid, p.52.
[7] Ibid, p.30.
[8] Armando A. Silvestre, Calvino e a Resistência ao Estado, p. 47.
[9] Ibid, p.31.
[10] Ibid, p.35. Após a morte de Calvino a população diminui gradativamente: 21.400 [1560]; 16.000 [1570]; 17.300 [1580]; 14.400 [1590]; 15.600 [1600] (Ibid, p.38).
[11] Ibid, p. 43.
[12] Ibid,p.52.
[13] Havia dois tipos de diáconos na igreja: Um “hospitalário”, que cuidava do hospital público e quatro “procuradores”, que cuidavam dos pobres.
[14] Armando A. Silvestre, Calvino e a Resistência ao Estado, p.51.
[15] Ibid, p. 47.
[16] Ibid, p.59.
[17] Ibid, p.41,42.
[18] Entre 1500 e 1536 foram recebidos 300 novos burgueses a cada ano; entre 1537 e 1547 foram recebidos menos de 20 anualmente (ibid, p. 68); uma clara represália ao partido reformador.
[19] Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, p.51.

Aula 14 = O Pecado Original.


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina II – Quem é o Homem Par Que Dele Te Lembres?
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Baltazar M. Morais Jr.
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Aula 14= O PECADO ORIGINAL (Romanos 5.12ss) (29/05/2011).
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1. DEFINIÇÃO:
O pecado não pertencia à constituição original da natureza humana, porque Deus não criou o homem já na condição de pecador. Adão legou à humanidade a culpa e a corrupção do pecado quando, agindo como seu representante, cometeu o primeiro pecado. O pecado original tem esse nome porque provém do primeiro pecado cometido por Adão e porque pertence (marca, contamina) a todos os homens desde o seu nascimento (Sl 51.5; 58.3).

2. OS DOIS ELEMENTOS DO PECADO ORIGINAL.
a. A culpa.
A palavra “culpa” expressa a relação que há entre o pecado e a justiça. É a penalidade da lei. Quem é culpado está numa relação penal com a lei. A culpa é o demérito moral de um ato ou estado de ser pecador. Mas a culpa também é o merecimento da punição, ou obrigação de prestar satisfação à justiça de Deus pela violação da lei. O demérito moral sempre o carregaremos conosco, mas a punição da culpa pode ser removida pela satisfação da justiça, de forma pessoal ou vicariamente. A punição da culpa é retirada dos crentes pela justificação, de modo que os seus pecados, embora merecedores de condenação, não os tornam mais sujeitos ao castigo.
Muitos negam que o pecado original envolva culpa, todavia a Bíblia ensina que a culpa do pecado de Adão, cometido por ele na qualidade de chefe representante da raça humana, é imputada a todos os seus descendentes, pois a morte, como castigo do pecado, passou de Adão a todos os seus descendentes (Rm 5.12-19; Ef 2.3; 1 Co 15.22).

b. Corrupção.
É a tendência pecaminosa do homem que inclui a ausência da justiça original e a presença positiva do mal no mesmo. A corrupção não é apenas uma moléstia ou uma privação, mas é pecado real, porque envolve tanto a queda como uma inclinação e uma disposição positiva para o pecado. Negar a culpa ligada ao pecado é negar o ensino bíblico sobre a corrupção do homem. A corrupção se apresenta na experiência humana como depravação e como incapacidade moral de se fazer a vontade de Deus.

Depravação total.
A corrupção herdada do pecado de Adão. A expressão é modernamente mal compreendida devido sua aplicação equivocada e limitada a questões sexuais hediondas. A depravação não quer dizer:
(1) que todo homem é tão completamente depravado como poderia chegar a ser;
(2) que no estado do pecado o homem não tenha nenhum conhecimento inato de Deus, nem tampouco uma consciência que discerne entre o bem e o mal;
(3) que o homem pecador não admira o caráter e os atos virtuosos dos outros, ou que é incapaz de afetos e atos desinteressados em suas relações com o próximo;
(4) que todos os homens não regenerados, por serem pecadores, se entregarão a todas as formas de pecado.

Depravação quer dizer:
(1) que a corrupção inerente do pecado contaminou todas as partes da natureza do homem, suas faculdades intelectuais, os poderes da alma e do corpo;
(2) que absolutamente não há no pecador bem espiritual algum com relação a Deus, mas somente impiedade e perversão (Rm 1.18ss; Jo 5.42; Rm 7.18, 23; 8.7; Ef 4.18; 2 Tm 3.2-4; Tg 1.15; Hb 3.12). A depravação do pecado atingiu o homem em sua totalidade (extenção) não em grau (todos os pecados cometidos são os piores que se poderiam cometer).

Na verdade a “graça comum” que age nas restrições da lei civil, as expectativas da família e da sociedade e a condenação da consciência humana, funciona como influência limitadora junto à tendência pecaminosa corruptora do coração humano.

Incapacidade total.
É o efeito da corrupção pecaminosa sobre os poderes espirituais do homem. Isso não quer dizer que o homem seja incapaz de fazer o bem nas relações da vida social e religiosa, pois muitos atos e sentimentos merecem a sincera aprovação e gratidão dos seus semelhantes, inclusive a aprovação de Deus até certo ponto. Todavia, esses mesmo atos e sentimentos, quando considerados em relação a Deus, são radicalmente defeituosos. Seu defeito fatal é que não são motivados pelo amor a Deus, nem pela consideração de que a vontade de Deus os exige.

A corrupção do homem em termos de incapacidade total, significa:
(1) que o pecador não regenerado não pode praticar nenhum ato que obtenha a aprovação de Deus e corresponda às exigências da santa lei de Deus; e
(2) que ele não pode mudar a sua preferência fundamental pelo pecado e por isso mesmo, trocando-a pelo amor a Deus; não pode sequer fazer algo que se aproxime de tal mudança. O homem é incapaz de fazer qualquer bem espiritual a não ser que Deus o mova a isso pela ação de seu Espírito no homem (Jo 1.13; 3.5; 6.44; 8.34; 15.4, 5; Rm 7.18, 24; 8.7, 8; 1 Co 2.14; 2 Co 3.5; Ef 2.1, 8-10; Hb 11.6).

3. O PECADO ORIGINAL E A LIBERDADE HUMANA.
A questão a levantada é: O pecado também envolve a perda da liberdade (livre arbítrio, vontade livre)? A resposta deve ser dupla: Sim e não. Em certo sentido, o homem perdeu a sua liberdade; noutro sentido, não a perdeu. A liberdade inalienável de um agente livre é a de escolher o que lhe agrada, em pleno acordo com as disposições e tendências predominantes da sua alma (natureza). O homem não perdeu nenhum das faculdades constitucionais necessárias para determiná-lo como um agente moral responsável. Ele ainda possui razão, consciência e a liberdade de escolha. Ele tem capacidade para adquirir conhecimento e para sentir e reconhecer distinções e obrigações morais; e os seus afetos, tendências e ações são espontâneos, de sorte que ele escolhe e recusa de acordo com o seu agrado. Além disso, ele tem a capacidade de apreciar e de fazer muitas coisas que são boas e amáveis, benévolas e justas, nas relações que ele mantém com os seus semelhantes.

Mas o homem perdeu a sua liberdade como o poder racional de determinar o procedimento, rumo ao bem supremo, sem as intromissões corruptoras do pecado na constituição moral original de sua natreza humana. O homem tem, por sua natureza, uma irresistível inclinação para o mal. Ele não é capaz de sozinho compreender e amar a excelência espiritual, de procurar e realizar coisas espirituais, as coisas de Deus, que pertencem à salvação e posteriormente à santificação. O pecador é escravo do pecado e não tem a menor possibilidade de tomar a direção oposta (Jo 8.34-36).

4. OBJEÇÕES À DOUTRINA DA DEPRAVAÇÃO E DA INCAPACIDADE TOTAL.
a. É incoerente com a obrigação moral porque não se pode responsabilizar com justiça o homem por uma coisa para a qual ele não tem a capacidade de realizar. Mas a incapacidade do homem é auto-imposta, tem origem moral no homem e não em alguma limitação que Deus lhe tenha imposto. O homem é incapaz como resultado da escolha pervertida que fez em Adão.

b. Ela retira todos os motivos para o esforço porque se sabemos que não conseguiremos levar a efeito um determinado fim, por que havemos de utilizar os meios recomendados para a sua realização? Todavia, é perfeitamente certo que o pecador iluminado pelo Espírito Santo e verdadeiramente cônscio da sua incapacidade natural, renuncia à justiça das obras. Mas o homem natural é totalmente dominado pela justiça própria, por isso não busca auxílio em Deus.

c. Favorece o atraso da conversão. Se o homem crer que não poderá mudar o seu coração, que não poderá arrepender-se e crer no Evangelho, achará que pode aguardar passivamente a ocasião em que Deus agrade mudar a direção da sua vida. A experiência ensina que há alguns que de fato adotam essa atitude; mas o efeito prático da doutrina na vida do verdadeiramente salvo é completamente diferente. Se o pecador acha que pode mudar a sua própria vida a qualquer momento diante de Deus, seria tentado a deixar essa mudança para o último momento. Mas, se ele perceber que essa realização tão desejável está fora dos limites das suas forças, instintivamente procurará rapidamente auxílio de fora. Essa é a essência dessa doutrina.

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Bibliografia: Louis Bekhoff, Teologia Sistemática, ECC, p. 239-245./ J. I. Packer. Teologia Concisa; ECC, p. 77,78./ Charles Hodge. Teologia Sistemática, Hagnos, p.652-674./ Wayne Gruden. Teologia Sistemática; Vida Nova, p.406-410./ J. Gresham Machen. Visión Cristiana Del Hombre; El Estandart de La Verdad, p. 224-236./ Confissão de Fé de Westminster IX.3.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Exposição 15 = Gálatas 5.1-12 - A Religião Falsa e a Verdadeira


Introdução:
Muitos detestam polêmica, outros, dão a vida procurando uma até encontrar. A Bíblia ensina que polêmica é algo que devemos evitar, mas que não devemos fugir delas quando o evangelho estiver em jogo.

Contexto:
Em Gálatas, Paulo mergulha de cabeça na controvérsia com os judaizantes para defender a pureza do evangelho da graça. Negar a justificação dos pecadores por meio unicamente da graça de Deus é algo que não podemos aceitar em alguma, porque denigre o nosso salvador porque tenta desfazer o escândalo da cruz.
O ponto em discussão é: Negar a justificação pela fé somente é escolher o caminho da falsa religião desligando-se de Cristo.

Proposição:
Paulo mostra a diferença entre a falsa e a verdadeira religião. Primeiro focalizando a vida dos crentes e depois o ensino dos mestres:

I. CRENTES VERDADEIROS E FALSOS v. 1-7:

O verso 1 é formado de duas sentenças que possuem uma afirmação seguida de uma ordem. A afirmação é que Cristo nos libertou para ficarmos livres. A ordem é que permaneçamos nessa liberdade firmemente.

a) Cristo nos chamou para a liberdade.
Nossa libertação e conseqüente liberdade em Cristo são fatos. O foco de Paulo não cai sobre a libertação do pecado, mas na libertação da lei como instrumento de salvação (justificação). O foco de Paulo aqui não é a libertação da vontade da servidão do pecado, mas a libertação da consciência da culpa do pecado. Ele está falando da liberdade de consciência diante de nossa luta por tentar obedecer a Lei e nunca conseguir. Ele deixa claro que o que nos torna aceitáveis na presença de Deus não é o nosso esforço por obedecer (pois fracassamos), mas a obediência suficiente de Cristo oferecida por nós (a favor de nós) na cruz.

b) Devemos permanecer firmes na liberdade.
Uma vez que Cristo comprou a nossa liberdade do jugo da lei, devemos usufruí-la erguendo-nos e andando com Deus numa vida cristã reta e agradável a ele.
Cristo nos resgatou da maldição da Lei morrendo em nosso lugar (Gl 3.13) removendo o jugo de nossos ombros e proporcionando descanso para nossas almas.
A seguir Paulo aplica essa questão ao caso da circuncisão levantando e respondendo duas perguntas claras nos versos 2 a 4:

c)O que acontece se voltarmos à velha vida?
 Seremos obrigados a guardar toda a Lei.
Quem acredita que precisa da Lei para salvar-se deverá guardar todos os seus preceitos e não pecar contra nenhum, se não a Lei servirá apenas para condená-lo. Quem erra em apenas um ponto da Lei é culpado de todos (Tg 2.10).

 Cristo de nada nos aproveitará.
Se a circuncisão é mesmo necessária à salvação (At 15.1,5) como prova de nossa obediência a Deus, então a morte de Cristo não tem significado ou valor, porque não substituiu coisa alguma.

 Seremos desligados de Cristo.
Acrescentar a circuncisão à salvação é perder Cristo, porque significa dizer que precisamos inteiramente de Cristo para a nossa salvação e depois voltar atrás e dizer que podemos dar uma ajudinha para Deus.

 Da graça decairemos.
Procurar a justificação na guarda da Lei é cair da graça.
Cristo não ensina duas religiões. Ou somos salvos de uma forma ou de tentamos alcançá-la de outra, não podemos tentar misturar as duas. Essa sinergia nos levará a desvalorizar a obra de Cristo e nos concentrarmos em nossos esforços novamente. A história da igreja inteira é nossa fiel testemunha desse fato.
“Se acrescentarmos alguma coisa a Cristo, perdemos a ele. A salvação está em Cristo somente, pela graça somente, através da fé somente” (John Stott, A Mensagem de Gálatas, p.122).

d) O que acontece se perseverarmos?
Nos versos 5 e 6 o pronome de “vós” para “nós”. O tom de advertência muda para muda para o tom da segurança da fé.
 Aguardamos a esperança da justiça que provém da fé.
O que de fato aguardamos em esperança? A vida eterna com Cristo! Observe que Paulo não diz que nós trabalhamos ou lutamos para alcançar essa esperança, mas nós simplesmente a aguardamos pela fé; guiados pelo Espírito Santo. A glorificação no céu é um dom tão gratuito quanto a justificação pela fé.

 Em Cristo o que tem valor é a fé que atua pelo amor.
Para sermos salvos a única coisa de que precisamos é estar em Cristo; e nós estamos em Cristo pela fé, não por fazer qualquer coisa.
O que é essa “fé que atua pelo amor”? Paulo não esquece que a vida cristã não é uma vida de inatividade. Não somos salvos pelas boas obras, mas somos salvos para as boas obras.

Nós esperamos a vida eterna “pelo Espírito”. No próximo capítulo Paulo vai dizer o que é viver e andar no Espírito. Certamente não é uma vida infrutífera e sem trabalhos ou obrigações. A vida cristã não é vida de escravidão e nem de libertinagem, mas é vida frutífera conduzida pelo Espírito (5.16-25). A fé que salva é a fé que resulta em amor, que atua pelo amor.
Paulo afirma que nessa esperança de vida os gálatas corriam bem, mas foram impedidos de continuar. Observe que a conduta segue a crença. O que cremos e como nos comportamos são duas realidades integradas. A má crença leva a uma má conduta.

II. FALSOS MESTRES E VERDADEIROS v. 8-12:

Paulo muda o contraste agora. Antes era entre “nós e vós”; agora é entre “ele e eu”. Ele faz um contraste entre o falso mestre e ele mesmo. Paulo faz três afirmações sobre o falso ensino:

a) Sua mensagem não se origina em Deus (v.8).
Sua origem não é Deus, aquele que nos chama. A mensagem dos falsos mestres era incoerente com a vocação divina. Deus os havia chamado na graça (1.6), não em obras meritórias.

b) O efeito de sua mensagem impede o crescimento e a maturidade em Cristo.
O efeito foi impedir o avanço espiritual dos gálatas (v.7). Também os perturbou (v.10) e incitou à rebeldia. Paulo ainda acrescenta que o falso ensino se espalha como o fermento que leveda toda a massa. O falso ensino é contaminante, espalhando-se e tomando tudo pela frente! Por isso precisa ser resistido desde o começo.

c) O fim a que sua mensagem leva é a condenação eterna (v.10).
O fim do ensino falso é a perdição. O ensino errado nunca triunfa no final, porque nada constrói apenas destrói. O que aparentemente é crescimento, na verdade é contaminação que adoece e depois mata. Aquele que espalha o ensino falso, diz Paulo, “sofrerá a condenação” (v.10). e Paulo chega a desejar que se mutilassem, ou seja, que se “castrassem” em função de sua loucura em defesa da circuncisão como caminho de salvação.

Paulo aparenta descontrolado e grosseiro, mas o fato é que ele está tomado de zelo e amor pela igreja a qual plantou com muito sofrimento.
Pregar a circuncisão é desfazer o escândalo da cruz, o que é inaceitável para os verdadeiros cristãos. A cruz de Cristo é a nossa glória (6.14). As pessoas detestam a pregação da cruz porque ela não lisonjeia, mas humilha. A pregação da cruz atrai perseguição, mas a pregação das obras bajula e agrada.
Essa marca diferenciadora não pode passar despercebida por ninguém que diz ser um verdadeiro cristão! No decorrer da história os pregadores cristãos que não distorceram ou diluíram a mensagem do evangelho da graça sofreram nas mãos daqueles que o fizeram e continuam fazendo. Estes sempre tropeçam na cruz, que é um escândalo, uma pedra de tropeço em seu caminho na busca de sucesso e popularidade!

Conclusão:

1. O cristianismo não é uma religião de realizações humanas.
A glória do cristianismo é o escândalo da cruz, pelo qual fomos salvos pelo amor imenso e intenso do Pai por meio do sacrifício do meigo salvador. Esse é o caminho estreito. Não há pompa; não há realizações; não há conquistas. Tudo o que precisamos é receber o salvador e entregando-nos a ele obedecê-lo pelo resto de nossas vidas e depois viver a eternidade com ele.

2. Existem atitudes que são intoleráveis.
Não podemos tolerar uma diluição na mensagem do evangelho para satisfazer o nosso século. Não podemos aceitar modificações na mensagem para agradar convenções sociais humanas. Não podemos trocar o evangelho puro por outro sofisticado, mas enganoso.

3. Existem escolhas que não podem ser adiadas.
Não se deixar e esperar o tempo passar, é preciso começar a correr desde já. Cristo nos chama para estarmos com ele, pois ele está conosco. Mas ele não aceita acompanhamentos e acréscimos. Ou andamos com ele somente ou não estamos no caminho ainda. O que vai ser?

O Cânon das Escrituras

Foto: O Manuscrito Sinaítico.

O CÂNON DAS ESCRITURAS

Introdução:

O termo cânon é de origem semítica (hebraico; “qãneh” – instrumento de medir; grego; kanõn – vara reta, régua). Depois passou a ser usado no sentido metafórico de “regra de ação”. O uso bíblico tem a ver com o grupo de livros que se conformam com a regra ou padrão da inspiração e autoridades divinas.
O primeiro uso do termo como uma lista normativa dos livros da Bíblia foi por Atanásio de Alexandria em 367.
Ao estabelecer o Cânon do Novo Testamento, a Igreja afirmou ao mesmo tempo a sua conexão com o judaísmo, que já tinham o Antigo Testamento e seu rompimento com eles, reivindicando a complementação do Antigo Testamento pelo Novo Testamento [1].

I) A Necessidade de um Cânon:

A Igreja precisava estabelecer seus padrões de culto, modelos de orações, liturgias e sermões. O Cânon supriria a Igreja de material para as devoções públicas e particulares dos cristãos, bem como o padrão teológico para resolver suas disputas internas (polêmicas e heresias) e externas (apologética) e um texto fixo para a obra missionária a outras línguas.
Os judeus haviam ratificado a lista oficial dos livros do Antigo Testamento em Jâmnia (90-100 a.C.), sendo natural que a Igreja cristã primitiva se apropriasse dela. Por outro lado, mesmo que as epístolas paulinas e os Evangelhos já fizessem parte de uma coleção única por volta do ano 100, o processo de formação do Cânon do NT duraria mais de dois séculos.
O Antigo Testamento usado pela Igreja nos dois primeiros séculos de sua história era a Septuaginta (LXX), que incluía alguns livros apócrifos do Antigo Testamento. Citações de sabedoria aparecem em I Clemente (3.4; 27.5) e Barnabé cita além da Sabedoria (6.7), II Esdras e Eclesiástico (12.1; 19.9). Policarpo cita Tobias (10.2). A Didaqué cita o Eclesiástico (4.5). Ireneu refere-se à Sabedoria, Susana, Bel e o Dragão e Baruque (Ad. Haer.IV.26.3; IV.38.3; V.5.2; V.35.1 e Demonstração 97)[2]. O uso dos apócrifos por Tertuliano, Hipólito, Cipriano e clemente de Alexandria é extenso e freqüente que dispensa qualquer citação. Quando os judeus demonstraram relutância quanto aos livros apócrifos é que a Igreja passou a tratar da questão com mais atenção. Melito de Sardes (170), após uma visita à Palestina, convenceu-se de que o cânon hebraico era o único autorizado [3] .
No quarto século, no oriente, os grandes líderes da escola de Alexandria (Atanásio, Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nazianzo e Epifânio) ensinavam que os livros apócrifos deveriam ser colocados numa posição secundária frente aos livros canônicos. Cirilo não permitia nem a sua leitura particular, enquanto que Atanásio achava sua leitura útil aos catecúmenos [4]. Por outro lado, membros da escola de Antioquia, como Crisóstomo e Teodoreto não partilhavam de tais preocupações; mesmo os que eram contrários ao reconhecimento dos apócrifos citavam-nos amplamente noutras ocasiões, fora do debate. Já o ocidente, sempre mostrou-se mais favorável aos mesmos (Hilário e Rufino), porém, esse não era o caso de Jerônimo, que julgava inflexívelmente que todos os que não eram encontrados no cânon hebraico, não deveriam ser reconhecidos [5].

O Dr. J. B. Tidwell [6] alista três razões principais para a formação do
Cânon bíblico:
1ª) Preservar os escritos sagrados da corrupção.
Com a morte dos profetas e dos apóstolos, a inspiração havia cessado, tornando necessária a reunião de seus escritos para preservar sua mensagem evitar alterações nas mesmas. As heresias desempenharam um papel importante na formação do Cânon. Foi Márcion , o herege gnóstico, quem propôs a primeira lista de livros sacros por volta de 144. Márcion tinha uma versão corrigida de Lucas (foram retiradas todas as referências ao Antigo Testamento) e dez cartas de Paulo. O surgimento do Montanismo, que acreditava ser “uma nova efusão do Paráclito” [7], que suplementava as Escrituras, caminhava nessa mesma direção.
2ª) Evitar a adição de outros livros.
Levantou-se a questão de qual era a extensão ou o alcance da inspiração, pois haviam outros livros reivindicando a inspiração (apócrifos e pseudoepígrafos).
3ª) Prevenir contra as tentativas de destruir a Bíblia.
Antíoco Epifânio (c. 150 a.C.) instaurou a pena de morte para quem fosse encontrado com livros judaicos sagrados, e os mesmos deveriam ser queimados. Quando Deocleciano (302 d.C) mandou queimar os livros sacros, surgiu a dúvida de quais livros seriam estes.

Duas perguntas se levantaram à Igreja com respeito à formação do Cânon:
1ª) O que é que torna um livro canônico?
2ª) Quando aconteceu o reconhecimento dessa canonicidade pelo
povo de Deus?

II) Referências Históricas Quanto à Formação do Cânon:

1)Eclesiástico: o prólogo de Jesus Ben Siraque datado de 130 a.C.
“Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam... após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos...”

2) 1 Macabeus ( 2.59,60/ 7.17): Datado em c. de 130 a.C., cita Daniel e
Salmos como Canônicos.

3) Josefo de Jerusalém (37-95 d.C): Contra Apionem 1.8:
Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois, contendo o registro de toda a história que, como se crê com justiça, são divinos... 5 de Moisés, 13 profetas e os demais livros ... que abrangem hinos a Deus e conselhos pelos quais os homens podem pautar suas vidas... Desde Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até nossos dias, tudo tem sido registrado, mas não tem sido considerado digno de tanto crédito quanto aquilo que precedeu a esta época, sendo que a exata sucessão dos Profetas cessou. Mas a fé que depositamos em nossos próprios escritos é percebida através de nossa conduta; pois apesar de Ter-se passado tanto tempo, ninguém jamais ousou acrescentar coisa alguma a eles, nem tirar deles coisa alguma, nem alterar neles qualquer coisa que seja.
Três observações são necessárias quanto ao afirmado por Josefo:
a) Josefo segue as três divisões das Escrituras Hebraicas.
b) Nenhum escrito canônico foi composto depois de Artaxerxes (464-424 a.C.), rejeitando, portanto, os apócrifos.
c) Nenhuma matéria nova foi incluída no Cânon desde essa época.
4) Lucas 24.44: Refere-se ao Antigo Testamento pela expressão “a Lei de Moisés, os
Profetas e os Salmos”. Salmos, Provérbios, Daniel e Lamentações são citados claramente como Escrituras ao lado da Torá.

5) II Pedro 3.16: refere-se aos escritos de Paulo como Escrituras.

6) Inácio de Antioquia (107): O Evangelho tem a mesma autoridade dos profetas do Antigo Testameno (Esmirna 5.1,2; 7.2). “seguir os profetas, especialmente o evangelho”(Esm. 7.2). sua única citação nominal do Novo Testamento é da epístola de Paulo aos Efésios (Ef 12.2).

7) Bispo Melito de Sardes (170 d.C.): Declarou em seus Extratos, ter
viajado para o Oriente para averiguar o número dos livros do Antigo Testamento (HE IV.26.12-14) e publicou uma lista bem próxima do Texto Massorético do AT, omitindo Ester e coloca Sabedoria (que pode ser Provérbios ou Sabedoria de Salomão).

8) Ireneu (180) [8] – Contra as Heresias III.11.8: Foi o primeiro a estabelecer uma relação intrínseca entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Defendeu a existência de apenas quatro Evangelhos da seguinte forma:
Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que estes quatro. Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos principais, e visto que a igreja é espalhada por toda aterra, e como tem por fundamento e coluna o Evangelho e o Espírito da vida, assim são quatro as colunas que espalham por toda a parte a incorruptibilidade e dão vida aos homens.
Ireneu faz nada menos que 206 citações das epístolas de Paulo [9].

9) O Cânon Muratoriano [CM] (200): Descoberto em 1740, em Roma pelo bispo Ludovico Antonio Muratori. Segundo Mark Noll [10],
Embora a linguagem do Cânon Muratoriano nem sempre seja inteiramente clara, as interpretações usuais do mesmo apontam para uma série de categorias que revelam continuidade e descontinuidade com o Novo Testamento posterior.
 Livros presentes no Novo Testamento e no CM na ordem em que aparecem: Os 4 Evangelhos, Atos, I e II Coríntios, Efésios, Filipenses, Colossenses, Gálatas, I e II Tessalonicenses, Romanos, Filemon, Tito, I e II Timóteo, Judas, I, II e III João e o Apocalipse.
 Livros do CM ausentes no Novo Testamento na ordem: Sabedoria de Salomão, Apocalipse de Pedro, Cartas de Paulo aos Laodicenses e Alexandria (forjadas em seu nome a fim de combater os ensinos de Márcion).
 Livros do Novo Testamento não mencionados no CM: I e II Pedro, Hebreus e Tiago.
 Outros livros discutidos no CM: Livros que deviam ser lidos, mas não incluídos entre os canônicos: o Pastor de Hermas.
O documento é interrompido quando começa a tratar dos salmos compostos pelos discipulos de Márcion.

10) Orígenes (+ 254 d.C.): Deixou um catálogo de 22 livros do Antigo Testamento preservado na História Eclesiástica [HE] de Eusébio de Cesaréia (HE VI.25.2) [11]. Ele acrescenta a Epístola de Jeremias e menciona I e II Macabeus. Quanto ao NT, refere-se às cartas de Paulo como não endereçadas a todas as igrejas e sendo cartas de “de umas poucas linhas” (HE VI.25.7). Com respeito às cartas de Pedro, declara: “Deixou só uma carta por todos reconhecida. Talvez uma Segunda, pois é posta em dúvida” (HE VI.25.8). Sobre II e III João afirma: “Nem todos dizem que estas são genuínas” (HE VI.25.10). Ele fez amplo uso dos apócrifos, mas preferia que no debate com os judeus fossem usados apenas os livros por eles reconhecidos (Ep. Ad. Afric. 4s) [12].

11) Tertuliano(160-250): declara serem 24 os livros canônicos do AT. Defendeu os Evangelhos e Atos contra os ataques de Márcion, bem como as treze epístolas de Paulo.

12) Jerônimo (340-420): O grande tradutor da Vulgata Latina reconheceu
em seu Prólogo Galeatus [13] apenas 22 livros canônicos, mesmo traduzindo os apócrifos:
Tudo quanto é separado destes deve ser colocado entre os Apócrifos... E assim, da mesma maneira pela qual a Igreja lê Judite, Tobias e Macabeus, mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois (Eclesiástico e Sabedoria) livros úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer as doutrinas da Igreja.

Por volta do final do IV século, as listas de escritos do Nov Testamento com os 27 livros já são completas e padronizadas, como na carta pascal de Atanásio (367), e no documento do Sínodo de Cartago, realizado em 397.

Conclusão:

Segundo Mark Noll [14] , a chave de todo o processo da formação e pleno reconhecimento do Cânon foi a apostolicidade, isto é, se o livro havia sido escrito diretamente por um dos discípulos de Cristo ou por alguém ligado diretamente a eles. Outro fator era se o escrito expressava de forma pura os ensinamentos dos apóstolos acerca de Jesus Cristo.
Além disso é preciso reconhecer que esse processo, muitas vezes intricado e complexo, foi gradual, permitindo que alguns livros estivessem na iminência de serem incluídos por muito tempo ainda, tais como o Pastor de Hermas, a Didaqué e o Apocalipse de Pedro [15]. Outros livros, incluídos somente mais tarde, tiveram de aguardar um tempo considerável para o seu reconhecimento, como foi o caso de Hebreus, Apocalipse, II Pedro, II e III João e Judas, ausentes em todas as listas mais antigas.
A fixação do Cânon foi um passo extraordinário e importante para a estabilização da vida da Igreja como testemunha das obras de Jesus Cristo na sua caminhada na terra.

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Notas:
[1] Mark Noll. Momentos Decisivos na História da Igreja, ECC, p. 37.
[2] Ad Haer. = Adversus Haeresis - Contra as Heresias, de Iireneu de Lião.
[3] J. N. D. Kelly. Doutrinas Centris da Fé Cristã; Vida Nova, p. 39.
[4] Ibid, p. 40.
[5] Ibid.
[6] J. B. Tidwell. Visão Panorâmica da Bíblia, Vida Nova, p. 28.
[7] J. N. D. Kelly. Doutrinas Centrais, p. 43.
[8] Ireneu de Lião. Contra as Heresias. Coleção Patrística vol. 4, Paulus, p. 285.
[9] J. N. D. Kelly. Doutrinas Centrais da Fé Cristã, p. 43.
[10] Mark Noll. Momentos Decisivos, p. 39,40.
[11] Eusébio de Cesaréia. História Eclesiástica, Novo Século, p. 213-215.
[12]J. N. D. Kelly. Doutrinas Centrais, p. 40.
[13] Citado por Gleason Archer Jr. Merece Confiança o Antigo testamento? Vida
Nova, p. 75 nota 5.
[14]Mark Noll. Momentos Decisivos, p. 41. J. N. D. Kelly Doutrinas Centrais, p. 44.
[15] J. N. D. Kelly. Doutrinas Centrais, p. 44.

Tomé Se Atrasou... (João 20.24-29)


TOMÉ SE ATRASOU...

Tomé se atrasou. Ele não estava lá quando Jesus chegou. Ele não estava presente ainda, quando a ressurreição fora finalmente testemunhada pela igreja reunida. Jesus lhes trouxe a paz, que o medo e as portas trancadas denunciavam não terem. Ao verem novamente o Senhor vivo, estampou-se-lhes no rosto a alegria de viver. O pastor reencontrou seu rebanho e os consolou com Sua presença. Mas Tomé não estava ainda lá.

Não podemos precisar os motivos de seu atraso. Talvez fosse o medo e o cansaço que o jogaram para dentro da depressão, fazendo-o lento para reagir e chegar. Talvez o tumulto ainda vivo da cidade o fizera se perder no trânsito e se atrasou. Talvez problemas pessoais e íntimos (quem sabe familiares) o fizeram atrasar. Contudo, o texto nos deixa perceber que o seu atraso não lhe permitiu receber a bênção de ver a Jesus ressurreto e de ouvir Suas palavras de paz.

Porque se atrasou perdeu o encontro e a alegria. Porque se atrasou, descreu do testemunho da igreja a respeito da ressurreição e por pouco não tumultuou o brilho daquele fim-de-tarde. Porque se atrasou, teve de esperar mais de uma semana (8 dias) para ver a Jesus; e depois do encontro, professar publicamente a sua fé.
Porque se atrasou, ouviu de Jesus palavras que não precisaria ouvir.

Como Tomé, muitas e tantas vezes nos atrasamos para o culto, para o encontro com o Cristo ressurreto; nem sempre como exceção, mas como regra mesmo. Como Tomé, causamos desatenção nos outros, e perdemos uma parte preciosa do culto e da liturgia do encontro com Deus. O culto não começa quando adentramos atrasadamente ao templo, e entre acenos e sorrisos, assentamo-nos apressadamente. O culto começa bem antes, quando nos preparamos para chegar.

Atrasamos por desorganização. Não organizamos o nosso tempo, para conseguirmos chegar a tempo.

Atrasamos por distração. Tantas coisas competem pela nossa atenção, que nos deixamos levar e, distraídos, vamos chegando devagarzinho, sem pressa.

Atrasamos por desinteresse. Achamos que nada de novo acontecerá, portanto, não vale a pena nos esforçarmos.

Atrasamos por irreverência. Se o culto não nos agrada, presumimos que também não agradará a Deus. Deus pode pacientemente nos esperar, porque afinal, ele não acontecerá sem nós. "Santa" presunção. IRREVERÊNCIA!!!

Atrasamos por causa de imprevistos. Nem tudo acontece do jeito que planejamos, é verdade; mas será que o Senhor das certezas e do culto só colocará imprevistos no nosso caminho?!

Felizmente, para Tomé aquele atraso foi uma exceção na sua vida; QUE SEJA TAMBÉM NA SUA, e de todos nós! Irmãos, procuremos não nos atrasar para o culto.

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Rev. Hélio de Oliveira Silva (30/03/2002)
Boletim da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia – ano VIII nº 14 – 07/04/2002.

sábado, 21 de maio de 2011

Aula 13 = O Conceito Bíblico de Pecado.


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina II – Quem é o Homem Par Que Dele Te Lembres?
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Baltazar M. Morais Jr.
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Aula 13= O CONCEITO BÍBLICO DE PECADO (22/05/2011).
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O pecado é uma realidade triste da humanidade e a principal característica da sua experiência, não podendo ser ignorado por quem quer entendê-la.

A. Conceitos Inadequados de Pecado:

1. DUALISMO.
Na filosofia é conhecido como o problema do mal mais que do pecado. Admite a existência de um princípio eterno do mal, e sustenta que no homem o espírito representa o princípio do bem, e o corpo o do mal. Entre outros problemas
(a) faz do pecado uma coisa puramente física e independente da vontade humana.
(b) Apresenta o pecado como uma necessidade. O único meio de escapar do pecado consiste em livrar-nos do corpo.

2. O PECADO COMO MERA PRIVAÇÃO.
A existência do pecado é considerada inevitável como uma simples negação ou privação do bem, não tendo uma causa eficiente. Iguala o mal moral ao mal físico ao descrevê-lo como apenas um infortúnio sobrevindo ao homem. Conseqüentemente, nega a respnsabilidade moral do homem ao pecar ignorando sua corrupção e culpa.

3. O PECADO COMO UMA ILUSÃO.
O pecado é simplesmente um defeito, uma limitação da qual o homem está consciente; e considera o mal, que surge dessa limitação, como necessário. Reduz toda a vida do homem a uma ilusão: seu conhecimento, sua experiência, o testemunho da consciência, pois todo o seu conhecimento é inadequado. Vai contra a experiência humana real que atesta ser os mais inteligentes, muitas vezes, os maiores pecadores, sendo Satanás o maior de todos.

4. O PECADO COMO FALTA DE CONSCIÊNCIA DE DEUS, PELO FATO DE ESTAR A NATUREZA HUMANA PRESA AOS SENTIDOS.
Ensina que a consciência do pecado no homem depende da sua consciência de Deus. Quando o senso da existência de Deus se desperta no homem, imediatamente toma consciência da sua pecaminosidade. Faz de Deus o autor do pecado, responsável por este, pois Ele é o Criador da natureza sensorial do homem. Esse conceito não leva em conta o fato de que muitos dos mais odiosos pecados do homem não pertencem à sua natureza física sensorial, mas à sua natureza espiritual (Ex.: avareza, inveja, orgulho, malícia e outros).

5. O PECADO COMO IGNORÂNCIA.
Quem não é cristão não têm nenhum conhecimento do pecado. A obra redentora de Deus torna o homem consciente da sua falta de confiança nele e da sua oposição ao seu reino. Trata o pecado de forma simplista e de fácil resolução. Como o pecado é apenas ignorância é também facilmente perdoável. Esse conceito desconsidera todas as implicações da morte sacrificial de Cristo a favor da humanidade. O pecado é mais que ignorância, ele também é culpa e corrupção diante de Deus e sua lei.

6. O PECADO COMO EGOÍSMO.
O egoísmo é entendido como o oposto do altruísmo ou da generosidade. Define o pecado como a escolha do ego, em vez de Deus, como o supremo objeto do amor. A inimizade para com Deus, a dureza de coração, a impenitência e a incredulidade são pecados hediondos, mas não podem ser simplesmente classificados como egoísmo. O erro é definir o pecado somente em relação ao próximo e não em relação a Deus. Pecado é também impiedade, perversão e ofença, não só egoismo.

7. O PECADO COMO OPOSIÇÃO DAS PROPENSÕES INFERIORES DA NATUREZA HUMANA A UMA CONSCIÊNCIA MORAL DESENVOLVIDA GRADATIVAMENTE.
É a doutrina do pecado do ponto de vista do evolucionismo. Os impulsos naturais e as qualidades herdadas, derivadas dos animais inferiores, compõem o material do pecado, mas não se tornam pecado concretamente enquanto não forem tolerados contrariamente ao senso moral comum da humanidade em seu processo evolutivo gradual. É apenas o velho pelagianismo enxertado na teoria evolucionista que desconsidera totalmente a imgem de Deus existente no ser humano.
A dificuldade desses conceitos é que procuram definir o pecado desconsiderando-o como abandonar a Deus, oposição (rebeldia) a Deus e transgressão da lei de Deus. O pecado só pode ser definido em termos da relação do homem com Deus e Sua vontade como revelada expressamente na sua lei moral.

B. O Conceito Bíblico de Pecado.

1. O PECADO É UMA CATEGORIA ESPECÍFICA DE MAL:
Fala-se muito do mal, e relativamente pouco do pecado; e isso é muito enganoso. Nem todo mal e pecado. Não se deve confundir o pecado como mal físico, com aquilo que é danoso ou calamitoso (deslizamentos, terremotos, tsunamis, enchentes). O pecado não é uma calamidade que sobreveio inesperadamente ao homem, envenenou sua vida e arruinou sua felicidade, mas um curso que o homem decidiu seguir deliberadamente e que o leva a miséria inaudita. O pecado é o resultado de uma escolha livre, porém, má, do homem (Gn 3.1-6; Is 48.8; Rm 1.18-32 e 1 Jo 3.4).

2. O PECADO TEM CARÁTER ABSOLUTO:
Na esfera ética, o contraste entre o bem e o mal é absoluto. Não há condição neutra entre ambos. A transição entre o bem e o mal não é de caráter quantitativo, e, sim, qualitativo. Um ser moral bom não se torna mal por uma simples diminuição da sua bondade, mas somente por uma mudança qualitativa radical, por um volver ao pecado. O pecado não é um grau menor de bondade, mas um mal positivo. A Bíblia ensina claramente que quem não ama a Deus é, por isso caracterizado como mal. O homem está do lado certo ou do lado errado, mas nunca neutro (Mt 10.32, 33; 12.30; Lc 11.23; Tg 2.10).

3.O PECADO SEMPRE TEM RELAÇÃO COM DEUS E SUA VONTADE:
É impossível ter uma correta concepção do pecado sem vê-lo em relação a Deus e Sua vontade, porque na Bíblia o pecado é definido como falta de conformidade com a Lei de Deus (“Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei” - I João 3.4. Veja Também: Rm 1.32; 2.12-14; 4.15; Tg 2.9).

4. O PECADO INCLUI A CULPA E A CORRUPÇÃO:
A culpa é o estado de merecimento da condenação ou de ser passível de punição pela violação de uma lei ou de uma exigência moral. Ela expressa a relação do pecado com a justiça ou da penalidade com a lei. A culpa é inseparável do pecado, pois está sempre presente na vida de quem é pessoalmente pecador. Ela também é permanente, uma vez que estabelecida, não pode ser removida pelo perdão. Negar que o pecado inclua culpa contradiz a Escritura e não se harmoniza com o fato de que o pecado é a ameaçado e punido com castigo (Mt 6.12; Rm 3.19; 5.18; Ef 2.3).
Por corrupção entende-se a corrosiva contaminação inerente, a que todo pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os indivíduos. É inconcebível sem a culpa, pois é conseqüência desta. Todo aquele que é culpado em Adão, também nasce conseqüentemente com uma natureza corrupta. A doutrina da corrupção do pecado é ensinada claramente em passagens como: Jó 14.4; Jr 17.9; Mt 7.15-20; Rm 8.5-8; Ef 4.17-19.

5. O PECADO TEM SUA SEDE NO CORAÇÃO:
O pecado não reside nalguma faculdade da alma, mas no coração, que na psicologia da Escritura é o órgão da alma, onde estão as fontes da vida (Pv 4.23). E desse centro, sua influência e suas operações espalham-se para todo o homem em seu intelecto, vontade e emoções, incluindo o seu corpo em suas sensações de olhar, ouvir, sentir, degustar e cheirar (Pv 4.20-25; Jr 17.9; Mt 15.19-20; Lc 6.45 e Hb 3.12).

6. O PECADO NÃO CONSISTE APENAS DE ATOS MANIFESTOS, MAS TAMBÉM DE PENSAMENTOS E SENTIMENTOS:
O pecado não consiste somente de atos individuais patentes, mas também de hábitos pecaminosos e de uma condição pecaminosa da alma. O estado pecaminoso é á base dos hábitos pecaminosos que se manifestam em ações pecaminosas. Os pensamentos e os sentimentos do homem natural, chamado “carne” na Escritura, constituem-se em pecado conforme indicam: Mt 5.22, 28; Rm 7.7; Gl 5.17, 24 dentre outras.

Conclusão:
O pecado é real e ninguém pode livrar-se dele na presente existência. Ele é a falta de conformidade com a lei moral de Deus, nos atos, disposição ou estado das ações e experiências humanas.

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Bibliografia: Louis Bekhoff, Teologia Sistemática, ECC, p. 223-230.

Exposição 14 = Gálatas 4.21-31 - Liberdade e Escravidão: Isaque e Ismael.


Introdução:
Algumas pessoas consideram esse parágrafo da epístola o mais difícil. Isso porque o texto faz duas exigências para a sua interpretação que não podem ser evitados: (1) Um bom conhecimento da história do Antigo Testamento. (2) O argumento de Paulo é muito técnico e exige muita atenção ao propósito de seu discurso.

Contexto:
Sua mensagem, no entanto, é bastante contextual para nós, pois trata da complicada questão de como podemos viver nossa liberdade em Cristo e não estar sob a Lei. Existem cristãos que vivem um cristianismo legalista reduzido à observância de regras, tratando o evangelho como se fosse uma nova lei que nos prende e disciplina.
Paulo confronta os judaizantes com a própria Lei, pois diziam viver debaixo da Lei, mas não a obedeciam completamente. Os verdadeiros herdeiros de Abraão são os que vivem pela fé, assim como ele viveu.

Proposição:
Paulo faz um contraste entre liberdade e escravidão, exemplificados na vida de Isaque e Ismael; Sara e Hagar. Seu argumento tem deduções lógicas:

I. SOMOS LIVRES COMO ISAQUE E NÃO ESCRAVOS COMO ISMAEL (v.22,23).

a) A verdadeira descendência de Abrão é espiritual, não física.
Um dos motivos de maior orgulho para um judeu era ser filho de Abraão. Deus se revelou a ele de modo claro e lhe prometeu dar a terra de Canaã e uma numerosa descendência de todo que seria incontável como as estrelas e os grãos de areia das praias.
Os judeus descansavam na aliança de Deus com Abraão, o que tanto João Batista (Mt 3.9) como Jesus julgaram enganosos (Jo 8.31-44). Eles mostraram que fé judaica estava equivocada por confiar sua herança na descendência física e não na descendência espiritual. Filhos de Abraão são os que crêem como a fé de Abrão.
Abraão teve dois filhos, mas eles eram completamente diferentes.

b) Eram diferentes porque nasceram de mães diferentes.
Isaque nascera de uma mulher livre, mas Isaque nascera da escrava. Sara era esposa de Abraão, Hagar era escrava de Abraão. Isaque nasceu livre, mas Ismael nasceu escravo.

c) Eram diferentes porque nasceram de maneiras diferentes.
Ismael nasceu de modo natural (segundo a carne), mas Isaque nasceu de uma promessa de Deus feita a Abraão (um milagre sobrenatural) [Hb 11.11].
Paulo diz que essas comparações são alegóricas.
Todos nós nascemos como Ismael (escravos do pecado) e pela fé devemos nos tornar com Isaque, livres do pecado.

II. VIVEMOS NA NOVA ALIANÇA E NÃO NA VELHA ALIANÇA (v. 24-27):

a) Quem era o povo de Deus?
Embora Paulo esteja fazendo uma alegoria, respeita as regras hermenêuticas da tipologia, ou seja, ele faz uma relação histórica entre as circunstâncias dos nascimentos de Isaque e Ismael com a verdade espiritual da existência de duas alianças entre Deus e seu povo: A velha aliança e a nova aliança. As duas alianças são representadas na pessoa das mães de Ismael (Hagar) e de Isaque (Sara).
A aliança é um acordo solene entre Deus e os homens, através do qual ele os transforma em seu povo e se compromete em ser o seu Deus. A antiga aliança foi dada por meio de Moisés (Lei) e a nova por meio de Cristo (sangue). Na antiga aliança Deus colocou responsabilidades sobre o povo: “farás... não farás”. Em Cristo ele mesmo assume as responsabilidades: “Eu farei”.
O povo de Deus na antiga aliança eram os judeus (os que viviam pela fé na promessa) e na nova aliança são os cristãos (justificados pela fé em Cristo).

b) Hagar.
Hagar é mãe que gerou um filho escravo e por isso representa a Lei que foi entregue por Moisés no Monte Sinai e a Jerusalém atual judaica com seus filhos escravizados à lei pelo judaismo.

c) Sara.
Sara representa a Jerusalém celestial salva pela graça. Ela é “lá de cima e livre”. Logo estamos ligados a Deus por uma nova aliança com uma cidadania de liberdade e não de escravidão.
Então Paulo cita Isaías 54.1, que é uma aplicação a Sara e Hagar, mas aos judeus no exílio. No exílio eram como uma mulher estéril e abandonada, mas depois da libertação seriam como a que tem filhos e canta alegremente o seu nascimento!
Paulo refuta aos judaizantes argumentando alegoricamente que não adianta evocar a Abraão como Pai terreno, pois o importante é saber de quem são filhos, de Sara ou de Hagar; da escrava ou da livre?

III. SOMOS LIVRES EM CRISTO E NÃO ESCRAVOS DA LEI (v. 28-31):
Se somos filhos de Abraão pela fé, somos como Isaque e não como Ismael. Nossa descendência é espiritual, não física; sobrenatural e não natural. É assim que funciona a justificação pela fé. Como Ismael tratou a Isaque é como o mundo nos tratará. Por isso:

a) Devemos esperar perseguição (v.29).
Ismael desprezou e escarneceu de Isaque quando ele foi desmamado. A perseguição mais grave desferida contra a igreja nem sempre é a que vem do mundo, mas a que vem dos crentes nominais ou dos ex-cristãos. A hierarquia legalista sempre foi um empecilho aos verdadeiros filhos de Deus.

b) Receberemos a herança prometida (v.30).
Embora Isaque tivesse que suportar zombaria por parte de Ismael, a herança lhe pertencia. Em Gênesis 17.18-21, Abraão chegou a desejar que Ismael fosse o herdeiro, mas Deus o recusou.
Embora enfrentemos a dor da perseguição, alegramo-nos com as riquezas da herança! O fato é que somos herdeiros com Cristo, herdeiros de Deus (Rm 8.17).

Conclusão:
1. Herdamos as promessas do Antigo Testamento.
O verdadeiro cumprimento das promessas do Antigo Testamento não literais, mas espirituais. As promessas de Deus se cumprem totalmente em Cristo e não na nação judaica com querem os dispensacionalistas, por somos herdeiros pela fé em Cristo e não pela descendência abraâmica. Nós, a igreja, somos o Israel de Deus (6.16) e a verdadeira circuncisão (Fp 3.3).

2. Experimentamos a graça de Deus.
A antiga aliança é marcada pela criação, a Lei e a servidão; mas a nova aliança é caracterizada pela promessa, o Espírito Santo e a liberdade. A primeira é antropocêntrica e a segunda é teocêntrica, por isso o cristianismo não é uma religião natural, baseada no homem, mas é sobrenatural, baseada em Cristo, baseada em Deus.

Quem é como Ismael acha que é justo por natureza, mas quem é como Isaque sabe que a justiça vem de Deus em Cristo sobre si. Quem quer viver sob a lei, vive na servidão, quem quer viver sob a graça, vive a liberdade que Cristo dá (Jo 8.32,36).
Devemos ser como Isaque, não como Ismael; livres, não escravos; porque somente em Cristo podemos herdar a promessa, receber a graça e desfrutar da liberdade de Deus.

Exposição 13 = Gálatas 4. 12-20 - O Objetivo da Pregação: Cristo Formado em Nós!


Introdução:
A gravidez é um dos momentos mágicos da vida de uma mulher. Em seu ventre está sendo formado um outro ser humano!
Mas a formação completa de um ser humano não acontece somente no ventre materno. O seu caráter será formado durante toda a sua infância até que chegue à maturidade.
É assim também com o evangelho. O novo nascimento não é tudo na vida cristã. Ele é apenas o começo de um processo que o Senhor Jesus chamou de “fazer discípulos” (Mt 28.20).

Contexto:
Nos parágrafos anteriores falou sobre a nossa relação com a lei e com o mundo traçando vários contratastes entre quem éramos antes e quem nos tornamos depois de conhecermos a Cristo. Éramos tutelados pela Lei presos e disciplinados por ela. Éramos como herdeiros menores que não podiam usufruir sua herança, mas obedecíamos e éramos vigiados por tutores.
A Lei foi nosso aio que mostrou a força do nosso pecado e nos apontou a Cristo como a única solução que poderia nos livrar de nosso jugo pesado e árduo.
Ele terminou o parágrafo anterior firmando ser uma loucura ter sido livre desse jugo por Cristo e agora desejar voltar à escravidão novamente. É um absurdo alguém ser filho e herdeiro, mas preferir viver como um escravo! Era por a perder todo o processo de discipulado iniciado na conversão deles!

Proposição:
Seu argumento chega agora a um clímax ao fazer um apelo no qual demonstra qual o objetivo da pregação do evangelho: Formar o Caráter de Cristo em Nós. O argumento de Paulo é duplo:


I. ELES DEVERIAM RETORNAR À VIDA CRISTÃ QUE TINHAM ABRAÇADO DESDE O COMEÇO (v.12-16):

a) Sede qual eu sou.
O apelo inicial de Paulo é que os gálatas sejam como ele em suas vidas cristãs. Vivam plenamente a sua liberdade em Cristo não se vendendo à antiga escravidão novamente. Que suas mentes não fossem conduzidas por falsos mestres, mas pela clareza do evangelho que conheceram em Cristo.
A vida cristã genuína produz uma liberdade, uma satisfação com Jesus Cristo e uma alegria em sua salvação que gostaríamos que todas as pessoas fossem como nós somos: Livres em Cristo.

Ilustração: Paulo disse algo semelhante ao rei Agripa em Atos 26.28,29: “... que todos que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou”. Ou seja, ele queria que o rei Agripa se tornasse não um prisioneiro como ele naquele momento, mas um cristão como ele já era.

Eles deveriam ser como Paulo porque Paulo havia se tornado como eles ao pregar-lhes o evangelho a primeira vez. Paulo não levou em conta o fato de ele ser judeu e eles gentios, mas pregou-lhes o evangelho com toda a liberdade.
Só poderemos ganhar as pessoas para Cristo se nos fizermos iguais a elas.
Citação: John Stott diz: “Para que elas se tornem iguais a nós em nossa convicção e experiência cristã, temos de primeiramente nos tornar iguais a elas em compaixão cristã” (A Mensagem de Gálatas, p.105).

b) Como receberam o evangelho a primeira vez.
Agora Paulo faz um contraste entre como o receberam no passado e como o recebem agora. Ele não tem queixas de como o trataram quando os evangelizou, mas suas queixas têm a ver com a atitude que tomaram depois que os judaizantes deturparam sua pregação e os seduziu com dissimulações e adulações.

No verso 13 Paulo lembra que pregou o evangelho na Galácia em meio a uma grave enfermidade. Não sabemos que enfermidade era essa, mas pela evidência do verso 15 é possível que tivesse a ver com os olhos (At 23.1-5; Gl 6.11). Paulo fala de um espinho na carne que o atormentava constantemente em II Coríntios 12.7. O fato é que essa o enfermidade o deixara tão desfigurado que os gálatas se apiedaram muito de Paulo e se aproximaram muito dele.

Aquilo fora uma tentação para eles no sentido de que poderia desacreditar o evangelho diante dos gálatas como hoje é o que vemos nas igrejas que pregam a prosperidade e a cura instantânea de todas as nossas doenças se recebermos a Cristo como nosso salvador. Apesar da doença, eles perceberam naquele Paulo fragilizado um anjo (um mensageiro) de Deus.

Jesus já havia dito aos apóstolos: “Quem vos recebe a mim me recebe” (Mt 10.40). A autoridade apostólica de Paulo não dependia de sua saúde ou prosperidade, mas dependia unicamente de quem o vocacionara, PIS quando somos e estamos fracos, então é que somos fortes (II Co 12.9,10). Faríamos bem se não nos esquecêssemos desse fato.

c) Eles perderam a verdadeira exultação do evangelho!
“_ Que é feito da vossa exultação?” é a primeira pergunta de Paulo no verso 15. A alegria da recepção do evangelho desvaneceu, porque eles não consideravam Paulo mais como um anjo de Deus, mas como um inimigo.
A razão dessa mudança é que Paulo os repreendera sinceramente e de forma direta por traírem o evangelho da graça e abraçarem novamente a escravidão da Lei.
A lição é clara, a autoridade do evangelho sobre as nossas vidas não muda porque a mensagem deixou de ser agradável. Eu não posso escolher partes prediletas nas escrituras e rejeitar as outras. A salvação nos é dada no evangelho todo e o evangelho todo deve dirigir a nossa vida toda. Não podemos tratar bem um pastor que nos ensina o que nos agrada e depois rejeitá-lo porque o ensino não nos agrada.

II. ELES DEVERIAM RECUPERAR O ZELO VERDADEIRAMENTE CRISTÃO QUE ESTAVAM PERDENDO (V.17-20):

Agora Paulo contrasta a atitude dos falsos mestres para com os gálatas e a sua própria atitude para com eles.

a) Cuidado com a adulação.
Paulo os acusa de serem aduladores (v.17). Já os havia chamado de dissimuladores em 2.13. Eles os bajulavam oferecendo mimos a fim de ganhar o coração da igreja e implantar o seu evangelho corrompido. Eles não eram sinceros, mas tinham o objetivo claro de afastar o coração deles de Paulo a fim de que não mais confiassem nele, e, por conseguinte, na sua pregação do evangelho.

b) É bom ser sempre zeloso.
Quando o evangelho é pregado e vivido como liberdade em Cristo as pessoas não ficam presas aos lideres de forma subserviente, sendo manipulados por eles. O seu desejo é servir a Cristo e tornarem-se maduros na fé nele. Mas quando o evangelho é transformado num saquitel de regras, ele se transforma em servidão legalista a regras e regulamentos e suas vítimas inevitavelmente ficam sujeitas e amarradas aos seus mestres, dependendo de lês para tudo, sendo controladas por eles em todas as suas decisões. (John Stott; A Mensagem de Gálatas, p.108).
O zelo verdadeiro não é o zelo supervisionado, mas o zelo que parte de convicções sólidas e pessoais para com Cristo e seu evangelho. Paulo os lembra que nosso compromisso é diretamente com Cristo e não com uma liderança que procura afirmar-se pela imposição de uma visão ministerial particular, muitas baseada em carismatismo ou poder social.

c) Novas dores de parto “até ser Cristo formado em vós”.
Paulo revela como foi a sua atitude para com eles. Ele os chama de filhos (v.19) e ilustra sua atitude como a de uma mulher grávida em trabalho de parto. Sua ênfase é no que sofreu e ainda sofre por eles.

Seu objetivo não é construir uma mega-igreja na galácia, mas ver Cristo formado neles. Paulo não deseja que Cristo esteja simplesmente morando neles, mas que ocupe todo o seu ser, o seu caráter! Que eles sejam como Cristo é.

Os falsos mestres queriam dominar eles mesmos. Paulo queria que Cristo os dominasse. Essa é a diferença entre o verdadeiro e o falso discipulado. O verdadeiro discipulado nos leva à obediência a Cristo, enquanto que o falso discipulado nos leva à obediência dos mestres humanos que querem nos explorar. Eles procuram somente o seu prestígio e posição, mas nunca se submetem a qualquer privação ou sofrimento pelo rebanho.

d) O afastamento do evangelho puro é a causa da perplexidade.
O relacionamento de uma mãe com seu filho recém nascido é primeiro de dor, por causa do parto, mas depois é de alegria e carinho. O anseio de Paulo é que as igrejas da galácia retornem ao evangelho a fim de que ele não sofra mais e eles possam gozar a alegria do relacionamento cristão coerente com o evangelho.

Conclusão:
Esse parágrafo nos ensina muito sobre a relação que deve existir entre os pastores e o rebanho de Cristo. É claro que os pastores não são apóstolos, mas pregam o mesmo evangelho que os apóstolos pregaram. Aqueles que tem reivindicado um novo apostolado têm mantido posições muito semelhantes às dos judaizantes que reivindicavam autoridade sobre as igrejas da galácia. Basta olhar para as fachadas das igrejas que fundaram e ver que suas fotos e “ministérios” aparecem mais do que Cristo e o evangelho que dizem pregar!
Mas por outro lado, os pastores têm obrigações para com o rebanho e o rebanho tem obrigações para com os pastores: Portanto o que devemos procurar nos pastores e nas igrejas?

1. O que os pastores devem observar no seu ministério.
“Se os ministros quiserem agir de maneira acertada, que trabalhem a fim de formar Cristo, não eles próprios, nos seus corações” (Calvino).
Não buscar prestígio pessoal, mas o progresso espiritual dos crentes.
Servir à congregação em vez de explorá-la para proveito próprio.

2. O que o rebanho deve observar no pastor.
Não se deve valorizar a aparência física, mas o conteúdo de sua mensagem. O pastor pode ser feio e deselegante, mas se é fiel deve ser ouvido e seguido, pois segue a Cristo.
Não se devem valorizar os caprichos teológicos do pastor, mas a verdade bíblica que ele prega. Quem prega a verdade não é nosso inimigo, mas ministro de Deus entre nós. Quem bajula e adula, geralmente nos engana e nos trai.
Não se deve valorizar num pastor o seu prestígio pessoal, mas a sua lealdade a Cristo e ao evangelho. Ninguém, por mais elevada que seja a sua posição na igreja visível é um apóstolo de Jesus Cristo como Paulo e os doze foram. Essa presunção tem levado muitos a rejeitarem a autoridade das escrituras escritas pelos verdadeiros apóstolos de Cristo. Não somos apóstolos, somos discípulos que seguem a doutrina dos apóstolos na qual devemos perseverar e ensinar fielmente (At 2.42). Quando um pastor fiel expõe as escrituras, a igreja deveria receber o seu ensino como de fato ele é, a palavra de Deus.

Os pastores deveriam procurar nas igrejas que pastoreiam não a sua boa vontade, mas o caráter de Cristo. As igrejas precisam de pastores que se preocupem com elas a ponto de trabalharem a fim de que o caráter de Cristo seja formado nelas. As igrejas deveriam procurar nos pastores não aparência, eloqüência ou elegância, mas se Cristo fala por meio deles!

Exposição 12 = Gálatas 4.1-11 - Antes Escravos, Mas Agora Filhos (Sem. Rogério Bernardes).


Introdução/ Contexto:
Paulo acaba de explicar a relação existente entre Abraão, Moisés e Cristo. Deus deu a promessa a Abraão e a Lei a Moisés. A Lei não foi dada com o propósito de anular a promessa, mas com o propósito de torná-la mais necessária e urgente. Paulo mostrou como essa promessa se cumpriu em Cristo.
Agora, Paulo faz um contraste entre a nossa condição sob a Lei (v. 1-3) e sob Cristo (v. 4-7) concluindo com um forte apelo à vida cristã (v. 8-11).

Proposição:
Estes onze versículos mostram quatro benefícios que recebemos decorrentes da vinda de Cristo.

I. FOMOS RESGATADOS DA LEI (v.5a)
Pela lei nós estávamos condenados, havia uma sentença de condenação pronunciada por ela e um castigo de morte eterna exigido por ela (Gn 2:17; Dt 30:15-19; Rm 5:12). Cristo nos comprou e nos libertou dessa maldição.

a) Como?
Pagando com o seu próprio sangue o preço do resgate (1 Co 6:20; 7:23).
Se todos nós nascemos em pecado – como diz Davi no Salmo 51 – por causa de Adão (Rm 5:12) e sendo escravos do pecado ou “estando sob o pecado”, era necessário que alguém pagasse o preço por nós.

b) Qual foi esse preço?
O seu próprio sangue.
Explicação:
O que Gn 2:17 diz é “certamente morrerás”, (Rm 6:23). O preço pelo pecado é a morte, eu só poderia ser livre da morte com a morte de outra pessoa em meu lugar. Para me resgatar, ou me remir, era necessário derramar sangue (Hb 9:22). Foi isso que Cristo fez (Gl 1:4; 3:13; Ap 5:9; 1 Pe 1:18,19).

c) Qual a condição para que o seu sangue pudesse resgatar o pecador?
Nascido de mulher, nascido sob a lei.

II. FOMOS ADOTADOS PELO PAI (v.5b)

Willian Hendriksen comenta que Cristo veio para que pudéssemos não só ser libertos do pior mal, mas também coroados com a mais preciosa benção. Ele veio não só para nos comprar a liberdade, mas também para que pudéssemos ser feitos filhos de Deus por adoção.
Calvino diz que os pais no regime do AT, tinham certeza de sua adoção, mas não desfrutavam tão plenamente de seus privilégios. Mas aqui a adoção é apresentada como uma possessão atual. Da mesma forma como nós esperamos a redenção esperavam a adoção. Ela se torna real, histórica, concreta, no “advento de Cristo”, ou seja, em sua vinda, morte e ressurreição.
Com isso nós temos:
Uma nova relação familiar;
Um novo estado legal;
Uma nova imagem.

III. FOMOS AGRACIADOS COM O ESPÍRITO (v.6)
“Enviou Deus o espírito de seu Filho”.
O Espírito vem logo após o cumprimento da obra de Cristo aqui na terra (Jo 16:7). Cristo veio e cumpriu tudo o que dele estava escrito, tudo o que veio fazer, e depois de sua obra terrena terminada, foi para junto do Pai, para que o Espírito Santo viesse.

a) Para que o Espírito veio?
Para aplicar os méritos salvíficos de Cristo ao coração dos crentes.
É pelo espírito que clamamos a Deus como Pai, ou que temos a consciência de que somos filhos de Dele (Rm 8:15,16). Assim Deus não somente garante a nossa filiação a Ele como também nos dá certeza dela. Como diz John Stott, é comos se Cristo nos garantisse o status de filhos, e o Espírito nos convencesse disso.

b) A quem o Espírito é enviado?
Aos filhos, isto é, a todos por quem Cristo morreu.
Isso lança por terra o que muitas pessoas interpretam de forma errada. A questão da descida do Espírito Santo em Atos. Pois o Espírito não é

IV. FOMOS FEITOS HERDEIROS DE DEUS (v.7)

A própria palavra em si expressa a nossa passividade em ter a salvação. Herança é algo ganhado, não conquistado. Se nós somos herdeiros da vida eterna é porque nós a ganhamos. Ao longo de toda a Escritura põe-se ênfase na natureza soberana e divina da obra que transforma um homem em filho e herdeiro de Deus. (Dt 7:7; Is 48:11; Dn 9:19; Os 14:4; Jo 15:16; Rm 5:8; Ef 1:4; 1Jo 4:10,19).

Aplicações:

1. A vida cristã é a vida de filhos e filhas, não a vida de escravos. É libedade, e não escravidão.

2. Para vivermos a vida cristão em sua plenitude é preciso estarmos claramente conscientes de quem somos e o que somos. A leitura diária das escrituras é um exercício para não deixar nos esquecer dessas verdades a nós dadas por Cristo através do Espírito Santo.

3. A lembrança de quem já fomos deve fortalecer a convicção na nova vida que agora somos e passamos a viver.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ele, Porém, Se Reanimou no Senhor Seu Deus (I Samuel 30.1-10)


ELE, PORÉM, SE REANIMOU NO SENHOR SEU DEUS (I Samuel 30.1-10)

Dar encorajamento às pessoas é um dom de Deus. Para animar aos outros, precisamos aprender a animar a nós mesmos primeiro. Porque uma pessoa desanimada é uma pessoa que sente e transmite derrota e inutilidade. Não falta talento e habilidade, mas falta coragem e dar valor à vida. Por que uns vencem mais do que os outros? Porque eles têm bom ânimo.

Davi ainda não era o rei, mas Deus o preparava para isso. Deus o havia poupado e protegido durante toda a perseguição organizada por Saul contra ele. O cuidado providencial de Deus o acompanhava aonde ele ia. Ele não conhecia derrotas.

No entanto, uma situação desoladora o confronta ao retornar para casa e poderia levá-lo a concluir que Deus o abandonara. Ziclague estava destruída e queimada. Suas esposas e filhos haviam sido levados cativos. Ele e seus soldados choraram até não terem mais lágrimas para chorar (v.4). Este foi o pior ataque de seus inimigos no período de sua preparação para o trono de Israel. Como ele poderia automotivar-se, vencer o desânimo e ser benção na vida direta de pelo menos 600 homens e seus familiares? Davi tinha inúmeras razões para ficar desanimado (v. 1-5):

Ele Estava Face a Face Com o Cansaço. É uma verdade clara que o cansaço nos desanima e nos faz cair. Eles tinham viajado por três dias, marchando cerca de 128 Km de Afeque até Ziclague. Eles estavam cansados, famintos e desejosos de usufruir o conforto aconchegante do lar.

Ele estava face a face com uma perda pessoal. Suas mulheres e filhos também foram levados cativos para um destino totalmente incerto e temeroso. Poderiam ser desfrutados como parte do despojo ou vendidos como escravos (v.16).

Ele estava face a face com o fracasso. Não previra o ataque surpresa dos amalequitas. A visão desoladora de uma cidade queimada, totalmente deserta era mais que sua tropa cansada poderia suportar. C. S. Lewis escreve nas Cartas do Coisa Ruim: “Hoje, tentando os líderes, todos caem com eles”.

Ele estava face a face com a falta de apreciação. Aqueles homens estavam amargurados contra Davi. Quando os sonhos vão por água abaixo é fácil responsabilizar alguém e arrumar um culpado. Como Davi era o líder, a culpa era sua.

Ele estava face a face com o perigo pessoal. Os homens falavam de apedrejá-lo. O apedrejamento só podia ser aplicado aos idólatras e aos adúlteros. Desde que fugira de Gibeá e de Saul, nunca Davi estivera tão só e tão vulnerável, ainda que tivesse enfrentado o perigo muitas vezes.

Mas cansados devem vir a Jesus (Mt 11.28). A alegria do Senhor é fonte de ânimo (Ne 8.12). E Deus restaura as forças do cansado (Is 40.29,30). Por isso uma frase muda tudo: “PORÉM, Davi se reanimou no Senhor seu Deus” (v.6) e toma duas atitudes que precisamos praticar nos momentos difíceis de nossas vidas:

Davi buscou a Deus (v. 6). Ele não culpou a Deus por seu infortúnio e tribulação, mas o buscou! Ele se reanimou em Deus primeiro, consultou-o e depois decidiu o que fazer. Ele é o seu Senhor (Sl 16.1). Ele é o seu Deus. Ele é o Deus da aliança. Davi não tinha uma experiência de Deus que fosse enlatada, mas pessoal, verdadeira e diária. Ele sabia que tinha à sua disposição recursos de um Deus fiel que é Senhor de todas as coisas e os usou para o bem de todos.

Davi buscou a Palavra de Deus (v. 8). Davi consultou a Deus e este lhe respondeu favoravelmente. Ele lhe dá uma ordem (persegue-os) e uma promessa (tudo libertarás).

Aprendemos aqui
(1) que quando Deus é introduzido num problema a luta que antes era contra nós passa a ser a favor de nós!
(2) que todos nós precisamos aprender com pessoas que são modelos de obediência.
(3) que a vida de fé só pode ser vivida na dependência diária de Deus que cuida tanto do nosso presente quanto do nosso futuro.
(4) que igrejas e pastores constantemente atravessam momentos de crise e podem vencê-las.
(5) que em vez de desejarmos apedrejar uns aos outros, devemos buscar a Deus e consultar sua palavra sobre qual decisão tomar sempre. É assim que vencemos e saímos de nossas crises.

Com amor, Pr. Hélio. (WWW.revhelio.blogspot.com)
para o Boletim da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia dia 22/05/2011.
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